A rapariga nova veio de Zus

Posted in Contos on Março 29, 2012 by José Manuel Nunes

- Sabeis que eu venho de Zus?- Disse a rapariga com grandes e brilhantes olhos, sorrindo de lediça¹.

A panda faz um breve silêncio. Perguntam para si quem é.  Deve ser a nova, a de terceiro. Mas disse o quê? Que veio de onde? De seguido as cavilações de todos tomam a voz de Roberto:

- De Zus? E isso onde é que fica?

A rapariga senta e acomoda-se com eles como se fizesse parte do grupo desde sempre, pois para extrovertida ela. Sem perder o sorriso a garota responde entusiasmada, gesticulando femininamente com as mãos:

-Pois está-vos mui, mui longe. De feito chegar até cá leva anos, por isso na nave há cabinas para dormir durante toda a viagem. Tem piloto automático. Eu vim com meus pais, tios e primos. Vimos ver que tal se está cá e se calhar ficamos para sempre.

Como nom?  Todos acham que os estám a vacilar. O que diz nom faz sentido nenhum. Mas há algo, uma naturalidade no modo em que conta isso.., semelha como se o acredita-se. Nom, isso é impossível. Está a falar doutro planeta. Uma alienígena? Definitivamente, ou está a fazer troça de nós ou está doida, realmente doida. Contudo ela prosegue:

- E vós? Sois de cá, nom é?

- Pois claro. E tu também. O que acontece é que se calhar estás maluca perdida.

-Quereis uma prova?- Disse a rapariga. Ato seguido bota a língua. -Veis, é azul, azulinha de todo. Os zustiãos temos todos a língua azul. Bom, antes havia pessoas que também a tinham laranja, verde, gris, branca, vermelha… Dependendo do idioma que se falasse, do tipo de comida, etc., a língua obtinha uma ou outra cor.

A turma ficou surpreendida. Pois é, tem a língua azul. Ninguém sabe o que dizer. A nova é.., sim, é uma alienígena.

- E agora? Todos a têm azul? O que se passou? – Pergunta Roberto.

- Pois ainda há pessoas que a têm doutras cores, mas cada vez há menos. Disse minha avô, que nom a têm azul azul, mas num tom violeta, que com o percurso do tempo todo o mundo começou a falar o mesmo idioma, a comer a mesma comida, a brincar com os mesmos jogos, a cantar as mesmas canções, a vestir a mesma roupa… O nosso planeta voltou-se mui chato. Por isso muitos estám a viajar a outros lugares como a Terra.

1. Lediça: s.f. O mesmo que alegria.

Uma lagoa nascida da magia

Posted in Contos on Dezembro 23, 2011 by José Manuel Nunes

Entrou pela janela cavalgando na sua bassoira de mágicas madeiras. Pelos vistos a senhora dos feitiços, Marisa, herdara da sua mãe o dom de voar com bassoira. É assim que nalgumas noites de verão pode ver-se passar por diante da lua cheia com a sua silhueta de bruxa, ceivando sonoras gargalhadas que chegam até o campo da feira de Quintás. Os nenos sinalam com o dedo e dizem -ei vai Marisa por riba das carvalheiras- Pois é, os mais pequenos querem-lhe bem, porque pelo natal participa nas cavalgatas e desde o céu guinda caramelos paras todas as crianças. Como podeis ver falo mais bem duma meiga do que duma bruxa. Cumpre lembrar que as meigas sôm boa gente, enquanto as bruxas trabalham o mal de olho e poderes escuros.

Mas o que me trai a contar este conto é explicar de como se formou a lagoa da vila, a do souto de Cosme, pois foi por obra desta boa feiticeira. Fora um ano de seca aquele em que os mananciais nom vertiam nem pinga e as árvores perdiam murchas folhas como ocres lenhos espetados num chão ferido pela sede. Nom havia pregaria que xurdisse efeito até que alguém, nom sei quem, teve a ideia de visitar a Marisa e perguntar-lhe se ela podia fazer algo a respeito. A meiga pediu mais uns dias para meditar e buscar alguma possível soluçom. De lá para pouco tempo deu cum remédio. De manhã, bem cedo, irrompeu no despacho do senhor secretário montada na sua bassoira, baixou e tomou assento.

- Necessito que convoques a todos os vizinhos e que lhes encomendes ir a Muros para trair cada um uma pequena pedra do rio.

- E isso vai a servir para algo? – Perguntou o secretário.

- Naturalmente que sim. É um remédio que está nas folhas do meu velho livro de magia para o bem. Os seus truques nunca falham, nunca.

- Está bom. Daquela hei fazer o que me dizes e a mais demorar o sábado tens na praza a todos os vizinhos com os coios, sim?

Assim foi como a vila inteira se reuniu esperando as instruções de Marisa. A levitar na sua bassoira a pouco mais dum metro do chão, disse-lhes que fossem aos seus hortos, pozos, fontes e eiras e que deitassem como semente as pedras que foram buscar a Muros. Mal os vizinhos cumpriram com a tarefa, começou a chover sem escampar em dias, mesmo semanas. Tanto choveu que no souto de Cosme se formou a grande lagoa na que os nenos vam pescar rás, a lagoa que nasceu da magia.

Na noite de Magusto

Posted in Contos on Novembro 1, 2011 by José Manuel Nunes

Aquela noite do solstício de outono Tabuada veio visitar à família, mas ninguém advertiu a sua chegada nem a sua partida. Estando a gente à mesa, Tabuada ocupou a mesma cadeira que sempre ocupava de vivo. Com a sua boné preta e olhar pacífico, vertendo tinto no copo com total naturalidade. Não disse nada. Ouvia indiferente as conversas e tudo parecia tão habitual, tão de sempre que a Manuela, a sua filha mais velha, demorou em perceber que seu pai estava sentado à mesa. Para aqueles que não conheçais aos da casa, Tabuada finara havia pouco mais dum ano e podeis não dar credo ao que vos estou a contar, mas de certo aconteceu. É mais, podeis perguntar à Manuela, ao seu homem, ao Alberto, que também esteve lá… Bom, pois é, ele viera visitar aos seus na única noite do ano em que a névoa que separa o mundo conhecido do sobrenatural se dissipa. Na Galiza usamos o termo noite de Magusto para o que os irlandeses chamam de Samhain, Samhuinn para os escoceses, Sauin para os maneses ou Samonius para os gauleses. O curioso é que quando a Manuela reparou no facto de seu pai estar presente este desaparecia como se não estivesse para voltar a manifestar-se ao pouco.

- Papá, papá, papá… – Repetia-lhe a Manuela até que o pai contestou.

- Diz-me, filha.

- Estás aqui? Como é possível? – Impassível como de vivo, Tabuada pegou no vinho e fez-se derrogar.

- O vinho da casa segue a ser boníssimo. E a comida.., que bem cozinhas, minha Manoelinha.

A gente ficou estupefacta, incapaz de acreditar o que estava a ver. Não podia ser. Como?

- Mas, papá, estás vivo! – Exclamou a Manoela com vágoas incipientes nos olhos, apertando com força seu mandil.

- Não, filha. Tou morto. – Tabuada volveu beber.

Custou afazer-se ao feito, mas finalmente perceberam que aquilo estava a passar e fosse milagre ou acaso, deviam aproveitar a oportunidade de estar mais um bocadinho com o grande amigo, com o velho Tabuada de olhos cansos, alma paciente e orador de poucas palavras. Pelos vistos há mortos que por qualquer motivo têm a capacidade de se materializar onde os vivos em tão sinalizada noite. E assim como Tabuada veio, marchou. Desapareceu sem mais, com a sua boné, abrigo azul escuro e cajado de pereira.

O galo Manolo

Posted in Contos on Setembro 2, 2011 by José Manuel Nunes

Por terras de Miranda havia uma galo quem de falar, não imitar sons como um papagaio ou certos corvos e pegas, senão de falar como as pessoas. Eu mesmo fui testemunha da milagre numa feira de Monterroso. Conhece-se que o dono passeia ao seu fenómeno pelas feiras e festas de todo o país tendendo a boné na procura de gratificações económicas e, pelo que contam algumas línguas hábeis na arte de se intrometer nas vidas alheias, o homem come a conta do galo. Vacas e leiras desatendeu com a loucura, chatice, do galo parlante. Lustroso que o tem, que lhe dá de comer do melhorcinho que há. Pentea-lhe as plumas, lima-lhe as unhas e mais os esporões, e todas as noites antes de se deitar, versa com a ave dicionário em mão intentando meter-lhe na testa alguma cousa em francês, latim ou alemão para maior grandeza do espetáculo, mas para vaidoso e teimoso o galo. Fala do que lhe peta e quando lhe peta. Quando eu vi em Monterroso conversava com paisano sobre a virtude que traiu a lex canuleia, ainda quando acabou sendo um instrumento favorável aos plebeus endinheirados. O galo -que se não lembro mal chamava-se Manolo- defendia o direito das pessoas a casarem com quem quiserem e por amor, enquanto o velhote defendia as monarquias e as sociedades aristocratizadas. Ao fim de contas a energia do seu amo investida em ler-lhe cousas de enciclopédias e dicionários deu os seus fruitos. Manolo é um galo mui culto que se resolve bem em qualquer conversa. Mas pelos visto o prodígio finou assassinado. Contaram-me não faz muito que numa partida de cartas Manolo delatou a mão dum dos jogadores. Este, num arrebate de ira, pegou ao galo e retorceu-lhe o pescoço. Agora seu dono anda como alma em pena pela casa, falando-lhe a quanto bicho há por ver se algum responde.

Perdido no tempo

Posted in Contos on Agosto 28, 2011 by José Manuel Nunes

Pascal Veiga nasceu cum dom, com o dom de chegar sempre com demora a qualquer encontro. Quase dez meses de gestação, o condenado demorou também ao nascer. Muitos dizem que é algo que lhe vem de família. Seu pai, seu avó, e mesmo há quem tem falado do seu trisavó. Poderia ser um caso interessante para a ciência investigar um possível gene do atraso, o gene de Pascal Veiga.

De Vilalba para Lugo, no autocarro, uma vizinha de Pascal contou-me tudo, de como o homem que sempre chegava com demora chegou a ser pontual para depois perder-se no tempo.

- Nom che é brincadeira. Isso é-che cousa mui séria, sim. É uma doença como outra, rapaz. Ainda bem que curou. Claro está que ninguém podia contar com ele para nada e o homem sentia-se só, mas o relojoeiro.., ai, que mãos mais artistas têm de ser as desse relojoeiro, sim. Fez-lhe um relógio muito especial para que não demore mais. Agora tem palavra. Se diz às doze, mar shampla, são as doze e nom as doze menos dez, as doze e quatro, as doze e vinte. Não as doze são as doze. O homem tinha-che superado o problema.

Assim como algumas aldeias pelo mundo inteiro têm relíquias santas como um pedaço da cruz onde finou Cristo, a vila da que eu falo tem o relógio de Pascal Veiga, que não é pouco. O coitado percorreu meio continente na procura dum relojoeiro capaz de lhe fabricar um relógio a medida como quem vai a um alfaiate encomendar um fato. Nom achou artista qualificado em Lugo, nem em Sárria, nem na Crunha, nem em Compostela, nem em Vigo, nem no Porto, nem em Chaves. Pascal ia lá onde ouvia falar dalguma mente brilhante iluminada pelas musas, mas ninguém era quem de tamanha empresa. Finalmente o Ramiro deu com a solução. Numa dessas noites de tinto e naipes, disse-lhe a Pascal que teria de ir a Suíça ou a Áustria, que lá são mestres de mestres, gente que trabalha com perfeição, que contudo não serem alemães, são germanos. Mal chegou a casa confessou-lhe à sua mulher a vontade de ir a Suíça na procura dalguém capaz de lhe fabricar o relógio, não qualquer relógio, mas o rélógio. Para gastos da viagem, de tradutor e da jóia Pascal vendou quase todas as suas terras, as vacas e mesmo botou mão da herança do tio Cláudio, que a guardava para uma emergência, no banco, a levedar juros. -Agora mudaremos de vida e quem sabe? Se calhar à minha volta abrimos uma padaria- Disse na porta, a se despedir da sua mulher. Um grande beijo, um abraço e Pascal malas em mão subira ao táxi caminho da paragem de comboios. Lá foi, primeiro a Zürich onde ouviu falar dum relojoeiro magnífico, Herr Dieter, mas ele nom se sentia capaz de satisfazer a encomenda de Pascal pelo que lhe recomendou visitar a outro mestre artesão que, contudo estar maluco, é quem de fabricar qualquer cousa por impossível que seja. A última esperança de Pascal estava em Schaffhausen, numa casa muito antiga, com artísticas molduras por volta de janelas e portas. Lá atendou à campainha Wilfried, o relojoeiro tolo. Parecia que tinha um olho bem mais grande que o outro, cum olhar perdido. Alto, ancião, com a cara cheia de arrugas e quatro cabelos brancos penteados de ocidente para oriente, o homem atendeu ao tradutor de Pascal e sim, aceitou a sua encomenda. A peça que Pascal trouxe para casá é simplesmente magnífica. Não faz tic-tac como os demais relógios, não, este faz tic-tec-tic-tac-tic-tec-tic-tac, tic-tec-tic-tac… É grande, dos relógios de bolso mais grandes que já vi, com muito luxo. Não lhe falta ouro, nem nácar, nem filigrana de artista gravador. Pascal tornou-se num homem responsável, cumpridor da sua palavra. Porém um dia foi-se-lhe a fala, e o ânimo, e a ração. Foi dito que estava na cozinha, numa dessas noites de gelada, perto do lume, a olhar para a obra que tantos esforços lhe valeu e quase que a ruina, e sem esperá-lo ninguém ficou assim, como morto em vida. Uma vizinha de Pascal, velha enlutada de sabedoria quase chamánica, diz que Pascal Veiga ficou perdido no tempo, onde não há antes, nem agora, nem depois.

Raimundo e a morte

Posted in Contos on Agosto 25, 2011 by José Manuel Nunes

Vou falar-vos dum destes homens que encaixa bem no estereotipo da boné e grande barriga curvilínea. Na face enterram-se-lhe os olhos, o qual faz ainda mais pronunciado o seu nariz captador de bons vinhos. Para que mais descrições? Todos sabeis como é o típico gailísis fear tavern ou, para aqueles que sois um bocado mais repunantes e que gostais mais de latim, o gallaeca taberna homo.Pois resulta que contudo o velhote não ter feito letras nem números, foi quem de safar-se do seu próprio destino, que não é algo do que poda presumir qualquer.

Caminho da taberna apareceu-se-lhe uma morte, uma dessas mortes pequenas que têm olhos de santinha, de não terem feito nunca mal a ninguém, mas que são das mais daninhas. Como é dito, os pequenos são os piores, veja-se o caso dos cães. Bom, pois é que essa pequena morte lhe disse a Raimundo:

 - Ai, Raimundo, vou-te matar.

- E logo?

- Nada, homem, apetece-me. Estou algo chata porque não tenho muito a fazer. Daquela é que te vim por aí, a caminhar, e pensei: vou matar ao Raimundo.

- Mulher, se é por isso podes vir comigo para a taberna, tomas algo e botar uma partida à baralha. O que achas?

- Ah, pois vamos lá

A morte aceitou, pois bem sabido é que as mortes gostam de café carregado cumas pingas1 de conhaque e que sôm boas jogadoras de cartas. Na taberna do Laretas, Ramiro, a pequena morte e mais três paisanos botaram várias partidas. Seis vezes ganhou Ramiro, quatro a morte e não lembro os outros. Pelos vistos o amigo livrou de ir para o além tam cedo, mas quem sabe quando a enlutada parca pode voltar. Isto contou-mo ele mesmo há por volta de dous2 anos numa feira em Monterroso.

  1. Pingas, s.f. O mesmo que gotas.

  2. Dous, adj. pl. num. card. O mesmo que dois.

Charlie

Posted in Contos on Março 11, 2011 by José Manuel Nunes

Ontem, quinta-feira 10 de março de 2011, Charlie finou. Alguns acudirão ao funeral no último adeus póstumo apenas para se fazer ver tal e como cumpre aguardar dos protocolos sociais. Os amigos não. Negamo-nos a capitular, porque dizer adeus por última vez é esquecer.

Na altura em que eu nasci Charlie era o chefe da paragem de comboios da Póvoa do Sam Julião, presidindo uma arquitetura de longa historia, da velha indústria local hoje destruída pelas raízes do tempo.. Suponho que a primeira vez que vi a Charlie eu ainda nem sabia caminhar. Aguardava no colo da minha mãe ou do meu pai, à espera dum comboio caminho de qualquer destino. Não seria a primeira vez. Algumas lembranças da minha infância estão relacionadas com o som das locomotivas, de passageiros que vão e vêm, do encontro e da despedida, dos passos que se cruzam no eco do pavilhão central da paragem.

Charlie era um homem grande, cum corte de barba ao estilo short boxed beard, sempre cum sorriso no rostro e habitual nas tertúlias nacionalistas sempre atrás dum bom café e whisky.  As assembléias do Bloco Nacionalista Galego de Láncara não serão as mesmas sem a sua companhia. Sem o seu riso, sem a sua amizade. El considerava que eu sou o único que tem um discurso verdadeiramente nacionalista em Láncara e curiosamente eu achava o mesmo dele. Velho amigo de meu pai sempre estivo associado ao nacionalismo galego ainda nascendo no berço duma família de direita. Ninguém pode negar que foi um homem altruísta, incorruptível, magnífico. A sua memória é um raio de luz na história duma vila corrupta, supersticiosa, egoísta e reaccionária, um raio de luz que jamais se extinguirá.

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